Por Antônio Machado
A eleição do primeiro presidente negro dos EUA conduz a uma lista de reflexões infindável. Menos a cor, no entanto, e mais a legenda repetida à exaustão pelo democrata Barack Obama, 47 anos, sobre o veterano republicano John McCain, é o que importa à sua vitória.
“Nós podemos mudar”, afirmou ele com convicção desde o início de uma campanha marcada pela emoção já nas prévias dos dois partidos, antecedendo a disputa final. Foi um apelo poderoso em meio a uma sociedade orgulhosa de seu poderio em todos os campos e, mais do que nunca em toda sua notável história de superação, arqueada pela desgraça econômica, a hostilidade internacional, o medo do futuro, “heranças malditas” dos oito anos de governo de George W. Bush.
Obama ignorou a questão racial, apresentando-se como um vitorioso ao melhor estilo do sonho americano e falando direto à alma de um povo cansado de guerras que não compreende, de temer o terrorismo tornado real nos infames atentados de 11 de setembro de 2001, mas tratado pelo governo Bush como um fantasma no sótão de cada casa.
De assistir anos a fio à degradação da educação, dos serviços de saúde pública, da aposentadoria – exemplos de eficiência para o mundo há menos de uma geração e hoje tão deteriorados como a rede de infra-estrutura rodoviária, de aeroportos, hospitais.
Frente a tais mazelas, McCain, 77 anos, herói de guerra, preso e torturado pelos vietcongues, falava de tempos de glória, liberdade para um mundo ameaçado por ditaduras. Repetia Bush, de quem buscou afastar-se, mas não falava da guerra maior: da virtude americana.
Ao apelo abstrato de McCain Obama contrapôs sua história de vida, semelhante à de tantos americanos de classe média e inspiradora à multidão de filhos de imigrantes cada vez mais numerosos nos EUA, sobretudo os de origem hispânica. Formou-se em Direito em Harvard, enriqueceu em Chicago como advogado corporativo, mora numa ampla casa de subúrbio, aspiração coletiva aos americanos, tem casamento sólido, duas filhas adolescentes. Um homem “comum” bem sucedido.
De estranho só tinha o nome herdado do pai (falecido), de crença muçulmana, parentes no Quênia, a juventude passada no Havaí. Tais diferenças a campanha de McCain explorou, apelando ao medo difuso recalcado na sociedade americana, armadilha que Obama neutralizou falando aos eleitores sobre os problemas do emprego em risco pela monumental crise econômica, os salários defasados. Foi ouvido.
Obama, o “abençoado”
Foi diluindo o preconceito do nome, o receio de sua inexperiência como político de primeiro mandato, o estigma da cor – latente num país em que vários estados adotavam em lei a segregação racial há menos de 40 anos -, mas com a dignidade de não “embranquecer” para mitigar antipatias.
Obama, “abençoado” na língua suaíli, falada no Quênia, onde vive sua avó paterna, superou dificuldades que noutros tempos da sociedade americana talvez não o permitisse ganhar nem a prévia democrata, derrotando o carisma dos Clinton.
Problemas siderais
Venceu nos EUA quando já havia encantado o mundo com sua energia, até no Brasil. De algum modo foi uma aposta. De McCain esperava-se mais do mesmo. De Obama, não. Algo de salvacionismo formou-se em seu entorno.
A expectativa de que tire os EUA do buraco e humanize as atitudes da única grande potência militar global talvez esteja acima da capacidade de seu governo, apesar da projeção imperial.
Os problemas são siderais: déficits são insustentáveis, a taxa de desemprego ameaça atingir 10% em 2009, as guerras no Afeganistão e Iraque, a interação com a China em ascensão. O que Obama fará?
Mudanças colossais
De sua campanha pouco se ouviu, afora que é possível mudar. Agora começa o jogo para valer. O desejo de mudanças é forte. Logo que a sua vitória foi anunciada começou a pressão para que antecipe, com anuência de Bush, as decisões de impacto, se é que as têm, contra a onda de despejos e para liberar o mercado financeiro e o crédito bancário.
É o primeiro grande teste. A cara de seu governo depende do papel de Wall Street, influente em Washington desde Reagan.
Obama terá maioria democrata na Câmara e Senado, fundamental para aprovar o ativismo fiscal que prometeu para animar a economia. Ela já afundou na recessão. Isso pode ser feito mantendo o status quo financeiro e os déficits comerciais financiados pelo mundo ou com reformas estruturais. Qualquer opção implica mudanças colossais.
Nuances em choque
Cardeais de sua assessoria dão pistas. Paul Volcker, o presidente do Fed que venceu a inflação de dois dígitos nos anos 80 ao custo de quebrar o mundo com juros acima de 20%, diz que a resposta de Washington à calamidade de Wall Street deve orientar-se, primeiro, pela economia real.
“Precisamos de mais engenheiros civis, de engenheiros elétricos, e menos engenheiros financeiros”, disse Volcker há dias.
Outro cardeal do “obanismo”, Robert Rubin, ex-chairman do Goldman Sachs, secretário do Tesouro de Bill Clinton, co-chairman do Citibank, defende o ativismo fiscal com a banca regulada, não excluída. São nuances em choque nos bastidores do obanismo, que dá lugar até a heterodoxos como James Galbraight. A ver o que será.



Barack Obama, 




